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sexta-feira, 17 de abril de 2009

Documentário revê assassinato da freira Dorothy Stang

O Estadão
17/04/2009

Toda história da morte da religiosa, ativa militante de direitos humanos, é analisada em 'Mataram a irmã Dorothy'

REUTERS - REUTERS
SÃO PAULO - O assassinato da freira Dorothy Stang, de 73 anos, em fevereiro de 2005, voltou às manchetes dos jornais nos últimos dias, quando o acusado de ser o mandante do crime, o fazendeiro Vitalmiro Bastos de Moura, o "Bida", foi enviado novamente à prisão.

Veja também:
Trailer de 'Mataram a irmã Dorothy' Toda a história da morte da religiosa, uma ativa militante de direitos humanos, é analisada no documentário Mataram a irmã Dorothy, do diretor norte-americano Daniel Junge, estreando nesta sexta-feira em quatro capitais do país - São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Belém.
Resultado de um trabalho de pesquisa de três anos, o filme recupera a trajetória da freira Dorothy Mae Stang, nascida em Ohio, naturalizada brasileira e que dedicou as quatro décadas em que viveu no Brasil - desde 1967 - à luta pelos direitos de pequenos agricultores e sem-terra.
Junto com outros religiosos da companhia Notre-Dame, ela apoiava especialmente o Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS), que prevê o assentamento de famílias em terras da Amazônia destinadas pelo governo federal. A filosofia do projeto impõe a conciliação de uma utilização reduzida da floresta combinada com a agricultura familiar, esta última em não mais de 20% do terreno.
A atuação da irmã Dorothy nos arredores do município de Anapu (PA) custou-lhe a vida, em 2005, quando os pistoleiros Rayfran das Neves Sales e Clodoaldo Batista supostamente foram ao seu encontro, descarregando sete tiros à queima-roupa, um deles na cabeça da religiosa. Na ocasião, ela carregava, como de hábito, uma Bíblia em sua mochila e chegara a recitar aos seus matadores alguns versículos do evangelho de São Mateus.
Segundo o processo na Justiça paraense, os pistoleiros teriam sido contratados por Amair Feijoli, o "Tato", a mando de Bida e, suspeita-se, também de Regivaldo Freire Galvão, que ainda não foi julgado.
Segundo o documentário, o foco da discórdia com a irmã foi o lote 55, uma área de floresta virgem compreendendo 3.000 hectares que já estariam destinados ao PDS mas teriam sido grilados e vendidos por Galvão a Bida. Depois do crime, o governo federal garantiu a posse do lote pelo PDS. Um preço de sangue alto demais, pago pela religiosa, e infelizmente não só por ela.
No filme, recorda-se que, em 30 anos, houve 750 mortes por conflitos de terra na região, sendo que apenas sete suspeitos foram julgados. Quando Mataram a irmã Dorothy foi concluído, em 2008, nenhum destes sete estava na prisão.
O documentário é altamente revelador dos bastidores do funcionamento da Justiça do Brasil. Falam por si mesmas as imagens da concessão de um habeas corpus para Regivaldo Freire Galvão no Supremo Tribunal Federal e as sucessivas chicanas jurídicas nos julgamentos dos implicados na morte da irmã Dorothy no Pará, onde o empenhado procurador Felício Pontes parece, infelizmente, uma voz quase solitária.
(Neusa Barbosa, do Cineweb)

quinta-feira, 16 de abril de 2009

ESTREIA-Talento de Lília Cabral sustenta interesse em 'Divã'

O Estadão
REUTERS
16/04/2009

SÃO PAULO - Mercedes (Lília Cabral) é uma mulher madura. Casada, mãe de dois filhos, dá aulas particulares de matemática, mas sua vocação é mesmo ser pintora -- ao menos é o que ela pensa. A vida vai bem, mas sua insistência em fazer análise resulta no longa "Divã", que estreia em circuito nacional, baseado na peça de teatro homônima. Muito ajuda o fato de Mercedes, tanto no teatro, quando no cinema, ser vivida por Lília Cabral -- mais conhecida por seus trabalhos na tevê, como na recente novela "A Favorita", no qual interpretou Catharina, uma mulher que apanhava do marido. Logo nas primeiras cenas, a atriz ganha a simpatia e confiança do público com seu sorriso fácil e sincero. Ainda assim, o filme parece não estar à altura da intérprete.
"Divã" é dirigido por José Alvarenga Jr (da série e do filme "Os Normais") a partir do roteiro de Marcelo Saback, que também assina a peça, baseada num livro de Martha Medeiros. Porém, há pouco de cinema na tela. O filme mais parece um episódio alongado de uma sitcom -- em que toda cena precisa terminar com uma piadinha, muitas delas sem qualquer graça ou real necessidade.
"Divã" parte do princípio que todas as pessoas tem uma vida interior interessante. Assim, por mais comum que Mercedes possa parecer, há algo dentro dela que vale a pena ser compartilhado com o público. Ela é uma daquelas mulheres que sempre se colocou em segundo plano em favor do marido (José Mayer) e dos filhos, e só agora percebe que desperdiçou sua vida. Planejando não perder mais tempo, acaba arrumando um amante mais jovem (Reynaldo Gianecchini, de "Entre Lençóis"), e vive seus melhores momentos, descobrindo prazeres novos, como sexo sem compromisso, e até ilícitos, como a maconha.
Curiosamente, ao longo do filme, o processo de autodescoberta sempre envolve um homem mais novo -- além de Gianecchini, ela também tem um caso com o personagem de Cauã Reymond (de "Falsa Loura"). O entusiasmo das novidades, porém, dura pouco. Custa à personagem perceber que só estará bem com o mundo quando estiver bem consigo mesma .
Há também a melhor amiga Mônica (Alexandra Richter), sempre insegura em relação ao marido e excessivamente ciumenta, cujo destino irá afetar profundamente a forma como Mercedes encara a vida.
Tudo isso é contado ao seu analista, que nunca aparece em cena. É como se o público fosse essa pessoa que ouve as aventuras e desventuras de Mercedes. A origem teatral e sua trama fazem lembrar o filme "Shirley Valentine" (1989), que contava também uma história feminista de autodescoberta -- mas neste a protagonista (Pauline Collins) falava diretamente ao público. (Por Alysson Oliveira, do Cineweb)
* As opiniões são responsabilidade do Cineweb

ESTREIA-Ligação entre arte e mundo real instiga em 'Sinédoque'

O Estadão
REUTERS
16/04/2009


SÃO PAULO - Alguns artistas sonham em capturar o mundo real em sua obra. Outros pensam em inventar seu próprio mundo. "Sinédoque, Nova York", em cartaz em São Paulo, Rio e Brasília a partir de sexta-feira, ambiciona as duas coisas -- e consegue cumprir sua promessa na maior parte do tempo.
O premiado roteirista Charlie Kaufman ("Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças", 2004) faz aqui sua estreia na direção, escrevendo também o roteiro e condensando na história todas as suas obsessões com metalinguagem e pós-modernidade. "Sinédoque, Nova York" é muito mais do que a figura de linguagem presente no título -- na qual, entre outras coisas, a parte representa o todo. É um filme que pode ser visto como uma releitura do clássico felliniano "8 ½" -- embora Kaufman tenha afirmado, numa entrevista após a première mundial do filme, no Festival de Cannes 2008, que desconhece o longa italiano.
No filme de Federico Fellini, de 1963, o protagonista (Marcello Mastroianni) era um cineasta em crise criativa. Na história de Kaufman, trata-se de um diretor de teatro (Philip Seymour Hoffman, de "Capote"), tentando criar sua obra-prima, a peça que deixará seu nome na história. A obra toda de Kaufman, que também inclui roteiros como "Quero Ser John Malkovich" (1999) e "Adaptação" (2002), ambos dirigidos por Spike Jonze -- que assina a produção aqui -- busca uma relação entre o que há dentro da cabeça dos personagens e a forma como esses pensamentos, desejos, frustrações se materializam.
Dessa vez, o foco cai sobre Caden Cotard (Philip Seymour Hoffman), o dramaturgo neurótico, casado com uma mulher tão atormentada quanto ele (Catherine Keener, de "Na Natureza Selvagem"), e cuja filha pequena é a soma exata das neuroses dos pais. As pessoas que cercam o protagonista também parecem sofrer de males emocionais, como a psiquiatra egoísta (Hope Davis, de "Confidencial"), que só pensa em transformar seu novo livro em best seller. Nesse momento, Caden dirige "A Morte do Caixeiro Viajante" -- com o diferencial de colocar atores jovens no papel dos idosos que protagonizam a peça de Arthur Miller.
Anos mais tarde, quando ganha um prêmio para a montagem de uma peça, o diretor decide escrever um texto sobre a vida, mas não uma representação da vida, mas, sim a vida própria, acontecendo em cima do palco. Para a empreitada, conta com a ajuda de sua nova amada, Hazel (Samantha Morton, de "Control"), e da atriz Claire (Michelle Williams, de "Não Estou Lá"), entre outros. Mas Caden ensaia a peça por anos a fio, porque, como na vida, não consegue chegar a uma conclusão.
A cada dia, acrescenta-se uma nova camada, uma novidade, um novo personagem -- e estes, assim como o diretor, envelhecem no palco, situado num grande galpão, um verdadeiro simulacro de Nova York, e, por extensão, da realidade. Para interpretar a si mesmo na sua peça, Caden escolhe um ator (Tom Noonan) completamente diferente de si.
Para o papel de 'Hazel', no entanto, coloca uma atriz (Emily Watson, de "O Dragão Vermelho") muito parecida com a verdadeira. As vidas dessas quatro pessoas se cruzam e se confundem à medida em que o dramaturgo se torna o Deus de seu próprio mundo. Tudo isso até a chegada de uma nova personagem, vivida por Dianne Wiest (de "Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada"). "Sinédoque, Nova York" é uma experiência cinematográfica estranha -- no bom ou no mau sentido, dependendo da disposição e do interesse do espectador.
É inegável, no entanto, que se trata de uma tentativa de fazer um cinema inteligente e instigante, longe das banalidades explosivas e escapistas nas quais Hollywood se acomodou. Kaufman pode ainda não ter o domínio da técnica de outros cineastas que dirigiram roteiros seus - como Spike Jonze e Michel Gondry. Mesmo assim, o roteirista se mantém um provocador costumaz, rompendo limites entre a arte e a vida, o real e o imaginário. (Por Alysson Oliveira, do Cineweb)
* As opiniões são responsabilidade do Cineweb

ESTREIA-'Anjos da Noite-A Rebelião' mantém suspense da franquia

O Estadão
REUTERS
16/04/2009

SÃO PAULO - Iniciada em 2003, a franquia criada pelo diretor e roteirista Len Wiseman ganha uma nova sequência com a estreia de "Anjos da Noite - A Rebelião".
Neste episódio, em vez de retratar as aventuras da vigorosa vampira Selene (Kate Beckinsale, de "O Aviador"), o filme volta alguns séculos para revelar o começo da milenar batalha entre vampiros e lobisomens. Nesta produção, Wiseman mostra o nascimento do personagem Lucien (Michael Sheen, de "Frost/Nixon"), o líder dos lobisomens. Único de sua raça, com a capacidade de se transformar quando quer, ele passa a ser escravo da classe dos vampiros, comandados por Viktor (Bill Nighy, de "Simplesmente Amor"). Resignado com sua própria sorte, Lucien protege o clã, mesmo que para isso tenha que matar seres de sua própria raça. Tudo isso até se apaixonar pela filha de Viktor, Sonja (Rhona Mitra, de "O Atirador"), o que provoca uma guerra entre as espécies.
Toda essa história já havia sido contada em flashbacks no primeiro episódio de "Anjos da Noite" (2003). Afinal, será devido a esse imbróglio que, séculos mais tarde, Selene enfrentará não apenas Lucien, como também seu protetor Viktor, cujo desfecho só será revelado em "Anjos a Noite - A Evolução" (2006).
Como são filmes complementares, é inegável a necessidade de assistir às duas produções anteriores para compreender este "Anjos da Noite - A Rebelião". Se o espectador não conhecer de antemão os personagens, o interesse no filme não se sustenta.
Inspirado em videogames e RPGs (Role Playing Games), Wiseman criou um universo de lendas, profecias e personagens tão intrincado que é preciso lembrar das referências espalhadas pela franquia. Esse é um trunfo e também a maldição da série. Apesar de passar o bastão da direção do filme para o francês Patrick Tatopoulos, conhecido por seu trabalho em efeitos especiais em filmes como "Eu Robô" (2004) e "Silent Hill" (2006), Wiseman manteve sua participação na concepção da história. Isso conferiu à produção um direcionamento afinado com o que acontecerá séculos depois.
Embora seja o menor da trilogia, "Anjos da Noite - A Rebelião" manteve a competência técnica da franquia, com boas cenas de ação e efeitos especiais bem definidos. No entanto, como nos outros filmes, também peca na exacerbada ambição de criar a mitologia, sem unir essa vontade a um eficiente ritmo narrativo. (Por Rodrigo Zavala, do Cineweb)
* As opiniões são responsabilidade do Cineweb

sexta-feira, 6 de março de 2009

'Watchmen' chega aos cinemas como adaptação de HQ

O Estadão
06/03/2009

Com muitos personagens, roteiro de David Hayter (X-Men 2) e Alex Tse quer dar conta do passado de todos eles

REUTERS
Divulgação

SÃO PAULO - Depois de muita disputa entre estúdios norte-americanos para determinar a quem pertenciam os direitos da adaptação da famosa série de HQ "Watchmen", o filme chega aos cinemas de todo o mundo nesta sexta-feira. Fiel ao espírito da obra original, o longa, dirigido por Zack Snider ("300"), discute a relação entre humanos e super-herois, num curso histórico alternativo (Nixon ainda é presidente dos Estados Unidos no ano de 1985), e suas consequências.
Veja também:
Trailer de 'Watchmen'

Mais do que isso, a obra publicada na década de 1980, escrita por Alan Moore (que não aceita que adaptação nenhuma leve seu nome nos créditos) e desenhada por Dave Gibbons, questiona o lado humano dos personagens com superpoderes: até onde a humanidade necessita deles? Como "Batman - O Cavaleiro das Trevas" já apontou no ano passado, heróis podem entrar numa crise de identidade bem séria. Combater o mal pode não ser tão compensador como imaginam os meros mortais.
Em sua essência, ao menos no começo,"Watchmen" é um suspense - o clássico "quem é o assassino?". No prólogo, o Comediante (Jeffrey Dean Morgan, de "PS - Eu te amo"), um ex-heroi decadente, é assassinado. A cena acaba com seu botton sorridente sendo manchado por uma gota de sangue - uma imagem emblemática da série, que será retomada algumas vezes.
O crime dá início à jornada do misterioso Rorschach (Jackie Earle Haley, de "Pecados Íntimos") para reencontrar seus amigos que também foram super-herois no passado. Coruja II (Patrick Wilson, de "Ao Entardecer") é um bonachão acomodado; Adrian Veidt, o Ozymandias (Matthew Goode, de "Match Point - Ponto Final"), conhecido como "o sujeito mais inteligente do mundo", ganha a vida licenciando produtos baseados em seus amigos; e Lauri Júpiter, a Espectra II (Malin Akerman, de "Antes só do que malcasado") vive com o Dr. Manhattan e tem problemas com a mãe, Sally Júpiter (Carla Gugino, de "As Duas Faces da Lei").
Porém, o personagem mais interessante de toda essa saga é o físico Jon Osterman, também conhecido como Dr. Manhattan (Billy Crudup, de "Missão Impossível 3"). Quando trabalhava em experiências para o governo, acabou atingido por uma forte carga nuclear. Tornou-se azul - e praticamente indestrutível - além de adquirir poderes como ver o seu passado e futuro.
Com essa gama de personagens, o roteiro assinado por David Hayter ("X-Men 2) e Alex Tse tenta dar conta do passado de todos eles, o que acaba sendo um problema no desenvolvimento da ação. Aliás, quando a ação se interrompe a fim de contar a formação de algum personagem é como se uma nota de rodapé fosse introduzida no meio do filme prejudicando todo o andamento da história.
Paradoxalmente, a melhor passagem, que conta a história do Dr. Manhattan, acaba sendo também a mais complicada por ser inserida bem no meio do filme. Quando descobrimos o seu passado e o seu dilema, tudo começa a fazer sentido. Mesmo sendo visualmente bonita, a sequência é verborrágica, carregada de termos científicos e de filosofia New Age, típica dos anos de 1980, e trilha sonora de Philip Glass. Depois desse longo flashback, Snider não consegue mais retomar o ritmo.
Certamente, os fãs da série em quadrinhos irão se deleitar vendo praticamente tudo o que foi concebido no papel transferido para a tela, inclusive diálogos literais. Mas a alegria de alguns, pode ser o pesadelo de outros. Tanta reverência não abre espaço para que os personagens e a trama respirem sozinhos.
O ar retrô de "Watchmen" (a ação se passa em meados dos anos 1980 mas com forte influência da década de 1960) é reforçado pela trilha sonora, que inclui Bob Dylan, Simon & Garfunkel, Leonard Cohen e Billie Holiday. Aqui, Nixon concorre ao quarto mandato e uma guerra nuclear entre Estados Unidos e União Soviética é iminente.
"Watchmen" possui um acabamento visual atraente e, ao contrário de outras adaptações reverentes, como "Sin City", não cansa. Por sua vez, o questionamento central do filme, pode fazer uma ponte com os tempos atuais de incertezas e guerras pelo mundo. No fim, descobrimos que o preço pela paz pode ser mais caro do que se imagina.
(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

O Estadão
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26/02/2009

SÃO PAULO - "Rumba", em estreia em São Paulo, é um daqueles filmes modestos que, na contramão das produções atuais, ignora pirotecnias e investe no talento e habilidade dos atores para fazer humor com pouquíssimos ingredientes.
É uma receita simples, prato de bistrô, que atrai um tipo de espectador disposto a se deixar levar pelas gags ingênuas e pelo humor físico, inspirados no cinema mudo. Impossível não se lembrar do desastrado Monsieur Hulot, personagem do mestre francês Jacques Tati, ao acompanhar as confusões criadas por um casal de professores de uma cidadezinha francesa, Fiona (Fiona Gordon) e Dom (Dominique Abel), que se transformam totalmente ao participar de concursos de dança. Eles treinam suas coreografias na quadra de esportes da escola, continuam as performances em casa e se deixam levar pelos ritmos latinos, a trilha sonora de suas vidas.
Fiona, Dominique e Bruno Romy (que faz um papel secundário no filme) assinam a direção e o roteiro. Fiona, nascida no Canadá, e o belga Dominique Abel trabalham juntos desde os anos 1980, em peças de teatro em Paris. A experiência cinematográfica começou na década de 1990, em três curtas, e foi aprofundada em 2004 no longa "L'Iceberg", já com a participação de Romy.
Um exemplo mais próximo dos brasileiros pode ser enxergado, com alguma generosidade, no grupo Os Trapalhões, que também exibia um humor corporal, explorado por um trio de cômicos com um pé no circo. Mas o grupo francês, apesar de defender um tipo de humor mais popular, sofistica suas tiradas, acrescentando um componente visual que faltava aos cômicos brasileiros. As cores e as roupas da dupla principal, inspiradas e exageradas nos figurinos dos anos 1950, servem como uma luva para a trilha musical, composta por rumbas alegres que permitem aos dançarinos executar passos sensuais e, ao mesmo tempo, divertidos. Fiona e Dom trabalham na mesma escola. Ela ensina inglês e ele, educação física. Suas metodologias são, no mínimo, peculiares, mas contam com a aceitação dos alunos que se divertem em aulas que têm tudo para ser chatas. Alunos e professores não veem a hora de soar o sinal para correr para casa e fazer o que mais gostam. No caso de Fiona e Dom, prosseguirem os ensaios para participar de um concurso de rumba, que eles vencerão, como sempre. Na volta de um deles, envolvem-se em um acidente que vai mudar suas vidas. Ao se desviarem do suicida Gérard (Philippe Martz), que se coloca no meio da estrada à espera da morte, batem o carro. Gérard lamenta não ter morrido, mas se apavora por ter causado o desastre que poderia ter matado os ocupantes do carro. Os dois escapam com vida, mas com graves sequelas: Fiona perde uma perna e Dom, a memória.
No entanto, o que era para ser trágico passa a ser tragicômico, mudando-se o tom para o humor negro e politicamente incorreto. Algumas das melhores sequências estão na volta da dupla para a escola, tentando retornar à normalidade - ela procurando se equilibrar com as muletas e ele nocauteando as crianças num treino de boxe. As confusões não param aí e só vão se aprofundar na vida desse casal excêntrico, impedido de realizar seus sonhos. Mesmo brincando na difícil trilha do humor politicamente incorreto, o filme não deixa de cercar seus personagens de um grande carinho e de ampará-los nos momentos em que mais precisam.
Eles nunca mais serão os mesmos, mas nem por isso precisam ser infelizes.
(Por Luiz Vita, do Cineweb)
*As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb